Operadores Frigorificados - Mercado acima, e abaixo, de zero
Que o Brasil é a bola da vez no cenário mundial já é mais do que sabido. Em diversos segmentos da economia o país surge como um oásis de oportunidades frente ao moroso desempenho verificado em outras partes do globo. Agora, após alguns anos verificando um crescimento sustentável, os operadores logísticos frigorificados aproveitam a maré de otimismo que se apresenta no mercado interno. Apostando na manutenção deste cenário, as companhias do setor investem em soluções, ampliam suas estruturas a fim de atender à demanda e colhem resultados positivos. O crescimento, porém, traz desafios que, pelo visto, são encarados pelas corporações locais como oportunidades de negócio.
Os números comprovam o bom momento. Na COMFRIO, responsável pela movimentação de carnes ? bovina, suína, pescados e aves -, além de sementes e sucos, o diretor de Operações, Francisco Moura, afirma que, após encerrar o ano de 2010 com movimentação de 250 mil toneladas, a expectativa da companhia para este ano é crescer 30%. "Cerca de 80% deste volume foram operados no mercado interno e 20% destinados à exportação. Há quatro anos, essa relação era inversa", revela.
Na Friozem, o diretor-presidente, Fábio Galesi Fonseca, não revela números consolidados, mas informa que a meta é crescer este ano 15% frente a 2010. Já na Schio, dos R$ 377 milhões faturados em 2010, o mercado interno contribuiu com 90%. O diretor Comercial da empresa, Jorge Queiroz, afirma que este ano o objetivo é crescer 25%. Enquanto isso, na Localfrio, o superintendente Comercial da Área de Frios do Grupo, Ricardo Oshiro, anuncia que o negócio de frigorificados responde por 15% do faturamento da companhia, com cerca de 80% deste índice obtidos com operações internas.
Melhorias Operacionais
Para suportar o aquecimento de demanda interna, a COMFRIO aposta em seu plano estratégico de investimentos. "No próximo mês de agosto começaremos a operar uma unidade em Jarinu (SP). O local tem capacidade para 70 mil m³ e exigiu investimentos de 20 milhões", diz Moura, que anuncia, ainda, que no mesmo período será concluída a expansão da filial de Limeira (SP), que passará dos atuais 56 mil m³ para 72 mil m³. Para esta obra a companhia destinou R$ 5 milhões.
Os trabalhos de melhoria para atender à demanda são contínuos. Prova disso, foi a inauguração, em novembro do ano passado, do centro de distribuição de Uberlândia (MG). O diretor de Operações afirma que esta estrutura caracteriza bem o atual momento aquecido do setor. "Este CD, que demandou investimento de R$ 10 milhões e foi concebido para atender ao mercado interno, começou a operar com 25 mil m³, mas logo em seguida ampliamos para os atuais 32 mil m³ e estamos prevendo, até o final do ano, expandi-lo para 40 mil m³", conta.
Outras iniciativas ficam por conta da ampliação de capacidade, ocorrida em junho do ano passado, da unidade 2 de Bebedouro (SP) ? cidade onde também fica a sede da empresa -, de 33 mil m³ para 40 mil m³, num investimento de R$ 2 milhões, e da unidade 1 do município, que recebeu outros R$ 2 milhões em estruturas de armazenagem e distribuição.
As obras reforçam a atuação da COMFRIO no mercado. "Já atendíamos a todo o estado de São Paulo e agora, com o CD de Uberlândia, atendemos ao Triângulo Mineiro. Já a unidade de Jarinu vai abastecer a região Sul e os outros estados do Sudeste, além da região Centro-Oeste e da Bahia", informa. Hoje, 70% da movimentação da empresa são destinados ao estado de São Paulo; Uberlândia já responde por 15% e a projeção é de que as demais localidades, estas atendidas por Jarinu, respondam pelos 15% restantes. "A tendência é aumentar a participação em outros estados, mas ainda não temos números", diz.
A expansão dos negócios não para. "Até o final do ano estamos prevendo a abertura de mais um CD focado no mercado interno", adianta. O executivo, no entanto, não revela em qual estado estará instalada a nova unidade.
De acordo com Fonseca, da Friozem, a empresa também aposta na melhoria de suas estruturas para prestar um serviço de qualidade e atender à demanda dos clientes. No CD de Jandira (SP), por exemplo, R$ 2 milhões serão destinados à compra de empilhadeiras, na aplicação de um novo WMS e num sistema de identificação de radiofreqüência a fim de agilizar o picking e a expedição das cargas. Em São Bernardo do Campo (SP), R$ 5 milhões serão destinados para a expansão do CD. Hoje, o local conta com sete mil posições-palete, e ao final de 2012, contará com doze mil posições-palete.
Já no Rio de Janeiro, uma nova unidade será instalada para atender a todo o estado. A expectativa é de que o CD comece as operações no início de 2014. Cerca de R$ 18 milhões serão destinados à construção de uma estrutura com 50 mil m³ de capacidade.
Foco regional
Na Schio, o objetivo é reforçar o atendimento à região Nordeste que, segundo o diretor Comercial, vem apresentando índices anuais de crescimento na casa dos 20%. Para este ano, a expectativa é de que o índice chegue a 25%. "Começamos a operar na região em 2008 com um CD de cinco mil posições-palete, e já estamos na quarta ampliação. Até o próximo mês de novembro ele atingirá 20 mil posições-palete, com um investimento de R$ 25 milhões", afirma Queiroz.
De acordo com o executivo, o Nordeste já representa 30% dos negócios da empresa. "Há quatro anos, realizando apenas transporte, faturávamos R$ 2 milhões por mês na região. Agora, faturamos R$ 8 milhões", constata. Ainda de acordo com Queiroz, o reforço das operações nordestinas ampliou o portfólio da companhia que, na região, movimenta bebidas de alto valor agregado, além de realizar o transporte para o setor médico, de produtos como sangue, por exemplo.
O diretor diz que, apesar deste crescimento regional, a Schio também investe em outras localidades. Hoje, a empresa opera três CDs in-house nos estados do Rio de Janeiro, Goiás e Pernambuco. Além disso, conta com unidades próprias na Bahia, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Paraná, Pernambuco e dois no estado de São Paulo, em Campinas e na região da Rodovia Anhanguera.
Entre as ações para reforço das estruturas, destaque para a expansão das unidades de Simões Filho (BA) ? de 9.500 m² para 30 mil m²; de Cabo de Santo Agostinho (PE), que passa dos atuais 15.601 m² para 20.901 m²; da Anhanguera, que chega a 168 mil m², frente a 118 mil m² de hoje; do Rio de Janeiro, ampliada de 39.749 m² para 40 mil m², e Contagem (MG), que sai de 6 mil m² para 10 mil m². Ao todo, R$ 305 milhões serão destinados para estas ampliações. As obras já foram iniciadas e a previsão é de que a unidade da capital fluminense, a última a ser concluída, seja entregue no final de 2013.
Atenção aos processos
Moura, da COMFRIO, lembra, contudo, que o crescimento do mercado interno traz inúmeros desafios logísticos. "Temos que agregar inteligência à operação, apresentar uma solução completa. No food service, por exemplo, é preciso fazer a armazenagem, o transporte e a gestão de compras. Já no trabalho junto às indústrias, é necessário efetuar o picking, definir horários de carregamento, disponibilizar informações via internet e automatizar os processos", salienta.
O diretor-presidente da Friozem também já vislumbrou as novas particularidades no segmento causadas pelo crescimento acelerado. "O mercado interno está aquecido, mas está mais complexo para se operar", resume. Na Friozem, em particular, isso já se evidencia, uma vez que 80% dos clientes da empresa são indústrias alimentícias, que em sua maioria, cerca de 60% enviam seus itens para o varejo ? supermercados, hipermercados e pequenos pontos de venda. "As operações nestes locais possuem restrição de horário, é preciso fazer as movimentações à noite, o que aumenta a complexidade operacional", diz.
O diretor Comercial da Schio observa outro movimento no setor. ?A tendência é realizar projetos dedicados. Atualmente, temos 30 clientes com operações dedicadas, de um total de 300?, revela. Para o executivo, o mercado pede um serviço melhor, mesmo sabendo que há incremento de custo.
Já Oshiro, do Grupo Localfrio, vislumbra a especialização como um caminho a seguir. "Devido ao crescimento do mercado interno, creio que haverá a segmentação das operações", acredita. Na companhia o trabalho já começou. "Fizemos um ajuste de perfil de clientes", diz. O trabalho consistiu em analisar as operações que possuem um giro maior e quais produtos ficavam mais estáticos, para ter um melhor aproveitamento da capacidade de armazenamento, movimentação e mão de obra. ?Substituímos negócios e entramos em novos mercados, como varejista e atacadista?, relata.
Moura opina que o mercado de operadores frigorificados ainda está a caminho de atingir a maturidade, e faz um lembrete: "Hoje, o nível de serviço e o profissionalismo da gestão são cada vez mais importantes. Quem cresce são aquelas empresas que, além da capacidade de investir, têm foco na operação", reforça. O executivo finaliza dizendo que as exigências que virão com o crescimento serão oportunidades de negócios para aquelas companhias que possuem processos estruturados. "Apesar do mercado aquecido, muitos perdem negócios por não apresentarem maturidade operacional", conclui.
Provedor integrado
Na Localfrio, Oshiro afirma que a meta é tornar a companhia um operador logístico que atenda a toda a cadeia, desde as operações portuárias, passando pela armazenagem, até a distribuição. "Queremos estar cada vez mais próximos dos clientes, participar dos seus negócios e apoiar as operações. Temos que ser um facilitador", ressalta.
Sem revelar detalhes, Oshiro revela uma das estratégias da organização para o mercado interno. "Futuramente, vamos entrar na distribuição física dos produtos perecíveis. É uma oportunidade que analisamos. Queremos chegar até o ponto final, conhecer os clientes de nossos clientes e com isso aumentar o nosso envolvimento", frisa. O executivo informa que a Localfrio também analisa outros nichos de mercado, como o farmacêutico. Hoje, 40% do volume movimentado pela empresa são carnes, 20% lácteos e o restante é composto por frutas frescas, secas, chocolates e vegetais congelados.
A Localfrio opera três unidades com câmara fria ? Moóca, com 30 mil m³; Anhanguera, com 40 mil m³; e Guarujá com 30 mil m³. Os CDs localizados na cidade de São Paulo são utilizados basicamente para atender ao mercado interno. "Essas unidades, que atendem à cidade e à região da Grande São Paulo, estão com a capacidade plena de ocupação e o giro do estoque é de menos de um mês", diz.
O desempenho citado por Oshiro é comprovado pelos índices obtidos. "Verificamos um crescimento em movimentação e receita de 50% nos últimos doze meses (maio-maio), e isso tem nos dado segurança para olharmos outras oportunidades no mercado de frigoríficos", afirma.
Intermodalidade
Na Brado Logística, empresa criada pela Standard Logística e América latina Logística (ALL), ao contrário das demais companhias, a proporção entre as operações internas e externas é contrária, 25% e 75%, respectivamente. Vale lembrar que, do total no mercado interno, 80% são referentes a produtos frigorificados e o restante é carga dry.
O presidente da Brado, José Luis Demeterco, explica que este índice se deve ao fato de a empresa agregar ao seu portfólio diversos serviços voltados ao comércio exterior, como movimentação de contêineres utilizando a intermodalidade ? rodovia e ferrovia -, além da armazenagem. Sem revelar números, ele informa que a participação do negócio exportação dobrou no faturamento da empresa.
O executivo ressalta, porém, que faz parte do escopo da Brado intensificar as operações no mercado brasileiro. Como por exemplo, ele cita que a companhia irá inaugurar um CD no Rio de Janeiro exclusivo para atender à demanda do estado. O investimento previsto, mais detalhes da estrutura e previsão de abertura não podem ser revelados.
Reforçar a utilização da ferrovia por meio da malha da ALL, juntamente com o modal rodoviário nas movimentações, também faz parte do plano estratégico para abastecimento nacional. "Os embarcadores de produtos industrializados estão analisando o uso da ferrovia, principalmente no eixo entre as regiões Sul e Sudeste?, diz. De acordo com Demeterco, ainda é prematuro divulgar números, já que os projetos de transporte ainda estão sendo concebidos. ?Nosso foco é promover a intermodalidade no mercado interno", anuncia.
Fonte: Revista Tecnologística - edição junho/11
Publicado em 20/09/2011